domingo, 4 de setembro de 2011

Manipulação de imagem no fotojornalismo

A busca pela verdade é um tema que está sempre presente quando se fala em jornalismo, e isso é ainda mais latente quando o assunto é o fotojornalismo, já que no imaginário coletivo a fotografia é considerada um recorte, um pedaço do real. A fotografia surge nos diários como ferramenta para dar credibilidade à história contada. Entretanto, com a criação de programas de edição e tratamento de imagens cada vez mais sofisticados, essa confiabilidade tem sido posta em dúvida.

O uso do Photoshop e outros programas de edição acabou originando um debate que envolve questões éticas e também estéticas. Segundo Carol Lopes, pós produtora do coletivo Cia de Foto, o seu trabalho de tratamento, e dos meios de comunicação em geral, é semelhante a dos laboratoristas antes dessa era digital, já que, segundo ela, nunca existiu foto não manipulada depois do clique. Contudo, hoje há a possibilidade de se construir a fotografia nos programas de edição, o que é considerado antiético no meio jornalístico. Após o caso de manipulação em fotos da guerra entre Líbano e Israel, feita pelo freelancer Hajj, em 2006, a Reuters divulgou em seu blog Regras e parâmetros de manipulação de imagem. Segundo David Schlesinger, editor chefe da agência entre 2007 e 2011, não é permitido adicionar ou deletar elementos que alterem o sentido da fotografia, além do uso exagerado de efeitos de iluminação e efeitos borrados ou manipulação de cor. Percebe-se que tudo depende do bom senso de quem trata as fotos, que deve identificar o que é ou não ruído, em que ponto há ou não excesso de iluminação ou contraste. As fotos que levaram ao desligamento de Hajj com a agência foram:





O fotógrafo foi acusado por alterar as fotos para defender o Líbano fazendo parecer que havia mais mísseis, aumentando o contraste da foto para escurecer a cortina de fumaça e duplicando a parte em que essa é mais densa.

Um outro lado da questão é que, ao passo que artigos de opinião e textos mais analíticos ganham espaço nos grandes jornais, já que o factual, a matéria quente acaba sendo publicada na internet, a fotografia jornalística também caminha para um caráter mais autoral, onde, ao lado da informação, está a marca e o posicionamento ideológico do repórter, esse caráter autoral está presente no tratamento dado a foto a partir dos recursos tecnológicos como photoshop, mas também do próprio olhar do fotógrafo sobre o fato já que o flagrante não pertence mais necessariamente ao fotojornalista, os cidadãos comuns hoje andam com seus celulares e podem faze-lo. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o doutorando Celso Bodstein fala da sua tese “A Ficcionalidade do Fotojornalismo”, que defende que o tratamento das imagens deve dar um aspecto cada vez mais artístico à fotografia, ele fala em fotojornalismo opinativo em que o caráter estético da foto passa a ser cada dia mais valorizado. Como exemplo, o autor cita uma foto publicada pela fotojornalista Marlene Bergamo, na Folha de São Paulo, em 2001, na qual “depois de registrar o corpo de uma vítima de assassinato na periferia de São Paulo, ela lançou mão de um software para dar um tom avermelhado ao céu mostrado na fotografia, posicionado em segundo plano em relação ao cadáver”, dando assim mais dramaticidade à foto. A empresa não considera a manipulação anti-ética e sim artística.

O assunto ainda é polemico e a única certeza é que, por mais regras e diretrizes existentes, o profissionalismo e bom senso do fotojornalista e do meio para qual trabalha ainda são o maior parâmetro, tanto para o momento da fotografia em si quanto para a manipulação da imagem na pós-produção.

Fontes:

http://ecodanoticia.net/phpBB3/viewtopic.php?f=11&t=5043

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/realidade-e-criacao-na-era-do-photoshop

http://holofote.net/holofote-videos/materias-e-estudos/escandalo-no-fotojornalismo-imagens-manipuladas-e-encenadas/

http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR46152cf32bf35_1.pdf

http://www.elmundo.es/elmundo/2010/01/20/comunicacion/1263988834.html

http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/bbc/2009/10/23/ult2242u1993.jhtm

Um comentário:

  1. Gostei muito da matéria e proposta do blog.
    Continue, entre clicks, avante na discussão. =D

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