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domingo, 9 de outubro de 2011

Fotojornalismo digital e a reconfiguração das condições de trabalho do fotógrafo



A introdução das novas tecnologias no mundo do trabalho, fomentada pela lógica capitalista de modernização e aumento de produtividade, causou mudanças na organização e nas condições de produção em diversos setores, inclusive no fotojornalismo, a partir do surgimento da fotografia digital.



Equipamento analógico usado por Pedro Martinelli na Copa do México de 1986


A fotografia digital surge no ano de 1989, com o lançamento das câmeras Rollei Digital Scanback, Fujix Digital Still Câmara, Kodak Professional DCS e softwares de armazenamento. A primeira vez que foi utilizada para o fotojornalismo foi na guerra do Golfo, em 1990, mas só foi utilizada em larga escala em 1994, durante a Copa do Mundo de Futebol nos Estados Unidos.

No Brasil, a digitalização dos processos de produção fotográficos nos veículos de comunicação aconteceu em meados da década de 90, tendo como pioneiro o jornal Folha de São Paulo, que foi o primeiro a criar um banco de imagens digitalizadas, em 1994. O marco desta mudança foi a cobertura da Copa do Mundo da França, em 1998.




O ingresso da microeletrônica nos processos produtivos é considerado por Jorge Pedro Sousa a terceira revolução do fotojornalismo, que, de modo geral, significou a substituição das câmeras analógicas pelas digitais, dos sais de prata pelos pixels e dos químicos de revelação pelo computador.



A rotina fotojornalística em tempos de fotografia digital

O advento da fotografia digital, no entanto, não trouxe apenas mudanças técnicas, mas modificou as condições e a rotina de trabalho do fotojornalista. Atualmente, há uma maior exigência de qualificação e uma intensificação do trabalho.

Como já dito, depois do surgimento da fotografia digital, os rolos de filme foram substituídos pelos cartões de memória. Também exigido que o fotógrafo domine softwares como o Adobe Lightroom e Adobe Photoshop para fazer o tratamento das imagens, catalogue as fotos corretamente, através de palavras chaves, para colocá-las no banco de dados. Com o aumento astronômico da quantidade de fotos produzidas, o armazenamento do material produzido tornou-se um problema e, por isso, esta catalogação é tão importante.

As condições de trabalho do fotojornalista não são fáceis: muitas pautas para cobrir em um dia, deadline apertado, pressão para uma foto de qualidade e relações de trabalho precarizadas. Em setembro deste ano, o site americano Careercast.com divulgou uma pesquisa com as dez profissões mais estressantes, e o fotojornalista é o quarto do ranking!

Enquanto Jorge Pedro Sousa ressalta as vantagens lucrativas para as empresas de comunicação com a introdução da fotografia digital (simplificação dos procedimentos e rentabilidade dos recursos humanos), José Afonso da Silva Junior pontua o acúmulo das funções de fotógrafo, analista e construtor de sistemas que integram as tecnologias fotográficas com as digitais e, citando Carlos Eduardo Franciscato, toca na objetivada redução de custos, na automação dos processos e sobrecarga de trabalho.

Confira abaixo algumas fotos feitas por André Rodrigues dos bastidores da cobertura fotojornalista do Final da Copa do Brasil de 2011. É a rotina do fotógrafo por um olhar dele mesmo.




Bibliografia

SOUSA, Jorge Pedro. História crítica do fotojornalismo ocidental. Chapecó: Grifos, 2000.

FELZ, Jorge Carlos. Imagens digitais e imprensa - alterações na produção fotojornalística. Intercom Nacional, 2007.

SILVA, José Afonso. Permanência e desvio no fotojornalismo em tempo de convergência digital: elementos para uma discussão preliminar. Intercom Nacional, 2008.

SILVA, Luciana Salviano Marques da; NOBRE Itamar de Morais. Análise do Ofício de Fotojornalista: Atribuições, Técnicas e Percepções. Intercom Nacional, 2011.

CARMO, Paulo Sérgio do. A ideologia do trabalho. 8 ed. São Paulo: Moderna, 1998.

domingo, 4 de setembro de 2011

Manipulação de imagem no fotojornalismo

A busca pela verdade é um tema que está sempre presente quando se fala em jornalismo, e isso é ainda mais latente quando o assunto é o fotojornalismo, já que no imaginário coletivo a fotografia é considerada um recorte, um pedaço do real. A fotografia surge nos diários como ferramenta para dar credibilidade à história contada. Entretanto, com a criação de programas de edição e tratamento de imagens cada vez mais sofisticados, essa confiabilidade tem sido posta em dúvida.

O uso do Photoshop e outros programas de edição acabou originando um debate que envolve questões éticas e também estéticas. Segundo Carol Lopes, pós produtora do coletivo Cia de Foto, o seu trabalho de tratamento, e dos meios de comunicação em geral, é semelhante a dos laboratoristas antes dessa era digital, já que, segundo ela, nunca existiu foto não manipulada depois do clique. Contudo, hoje há a possibilidade de se construir a fotografia nos programas de edição, o que é considerado antiético no meio jornalístico. Após o caso de manipulação em fotos da guerra entre Líbano e Israel, feita pelo freelancer Hajj, em 2006, a Reuters divulgou em seu blog Regras e parâmetros de manipulação de imagem. Segundo David Schlesinger, editor chefe da agência entre 2007 e 2011, não é permitido adicionar ou deletar elementos que alterem o sentido da fotografia, além do uso exagerado de efeitos de iluminação e efeitos borrados ou manipulação de cor. Percebe-se que tudo depende do bom senso de quem trata as fotos, que deve identificar o que é ou não ruído, em que ponto há ou não excesso de iluminação ou contraste. As fotos que levaram ao desligamento de Hajj com a agência foram:





O fotógrafo foi acusado por alterar as fotos para defender o Líbano fazendo parecer que havia mais mísseis, aumentando o contraste da foto para escurecer a cortina de fumaça e duplicando a parte em que essa é mais densa.

Um outro lado da questão é que, ao passo que artigos de opinião e textos mais analíticos ganham espaço nos grandes jornais, já que o factual, a matéria quente acaba sendo publicada na internet, a fotografia jornalística também caminha para um caráter mais autoral, onde, ao lado da informação, está a marca e o posicionamento ideológico do repórter, esse caráter autoral está presente no tratamento dado a foto a partir dos recursos tecnológicos como photoshop, mas também do próprio olhar do fotógrafo sobre o fato já que o flagrante não pertence mais necessariamente ao fotojornalista, os cidadãos comuns hoje andam com seus celulares e podem faze-lo. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o doutorando Celso Bodstein fala da sua tese “A Ficcionalidade do Fotojornalismo”, que defende que o tratamento das imagens deve dar um aspecto cada vez mais artístico à fotografia, ele fala em fotojornalismo opinativo em que o caráter estético da foto passa a ser cada dia mais valorizado. Como exemplo, o autor cita uma foto publicada pela fotojornalista Marlene Bergamo, na Folha de São Paulo, em 2001, na qual “depois de registrar o corpo de uma vítima de assassinato na periferia de São Paulo, ela lançou mão de um software para dar um tom avermelhado ao céu mostrado na fotografia, posicionado em segundo plano em relação ao cadáver”, dando assim mais dramaticidade à foto. A empresa não considera a manipulação anti-ética e sim artística.

O assunto ainda é polemico e a única certeza é que, por mais regras e diretrizes existentes, o profissionalismo e bom senso do fotojornalista e do meio para qual trabalha ainda são o maior parâmetro, tanto para o momento da fotografia em si quanto para a manipulação da imagem na pós-produção.

Fontes:

http://ecodanoticia.net/phpBB3/viewtopic.php?f=11&t=5043

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/realidade-e-criacao-na-era-do-photoshop

http://holofote.net/holofote-videos/materias-e-estudos/escandalo-no-fotojornalismo-imagens-manipuladas-e-encenadas/

http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR46152cf32bf35_1.pdf

http://www.elmundo.es/elmundo/2010/01/20/comunicacion/1263988834.html

http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/bbc/2009/10/23/ult2242u1993.jhtm